Meninas descobrem mundo da tecnologia em projeto da USP que ensina programação

13/09/2021

O empoderamento feminino pode vir de muitas formas e uma delas é por meio da inserção de mulheres em áreas ocupadas majoritariamente por homens, como acontece hoje em dia com as ciências exatas. A transformação em busca da igualdade de gênero nessa área depende de iniciativas que estimulem desde cedo o interesse de jovens garotas pelo ramo, como a Technovation Summer for Girls (ou TechSchool), escola de verão realizada desde 2018 pelo Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação (ICMC) da USP, em São Carlos. O projeto já impactou mais de 450 meninas, de 10 a 18 anos, ensinando técnicas de programação e de habilidades empreendedoras para o desenvolvimento de aplicativos que podem ajudar a solucionar problemas sociais.

Mudança de vida

Uma das alunas que participaram do projeto é Adrielly Inocêncio, de 14 anos, que esteve na edição de 2021 da TechSchool.

“Quebrar estereótipos é algo que está mais frequente na sociedade e me sinto muito feliz em poder fazer parte disso. Projetos como a Technovation Summer School são excelentes oportunidades para que as garotas se descubram na área da tecnologia, porque nós podemos fazer o que quisermos. Tenho certeza de que a participação na escola de verão vai mudar a vida de muitas meninas, especialmente a minha. Essa experiência conta no currículo e pode me ajudar a entrar em uma escola melhor ou, futuramente, em uma universidade”, conta a jovem.

Escola de verão

A escola de verão é um projeto do Grupo de Alunas de Ciências Exatas (Grace), vinculado ao ICMC. Durante a TechSchool, que é totalmente gratuita, diversos conteúdos são ministrados por mentores voluntários que realizam palestras e oficinas. Um dos objetivos é mostrar a representatividade das mulheres na área de ciências exatas. “As meninas conhecem várias engenheiras, cientistas e estudantes do ramo. Gostaria de ter vivenciado uma experiência como essa quando tinha a idade delas, pois por muito tempo achei que a área era exclusivamente masculina”, afirma Ana Beatriz Bavaresco, uma das mentoras do Grace e estudante de Engenharia Aeronáutica da Escola de Engenharia de São Carlos (EESC) da USP.

Abrir caminhos

Além de abrir caminhos para o empoderamento feminino e apresentar novas possibilidades de carreiras, a escola de verão também busca incluir pessoas de baixa renda e aproximar a sociedade da Universidade.

“Em geral, 80% das participantes são de escolas públicas, e a experiência nesses últimos anos tem sido incrível. Elas têm contato com tecnologias, com o pensamento computacional e com pessoas que já estão atuando no mercado de trabalho, permitindo que elas tenham a oportunidade de saber quais são as possibilidades e perspectivas futuras, caso resolvam seguir por esse caminho. Quando realizado de forma presencial, o projeto estimula ainda a convivência direta com o ambiente da USP e a troca de experiências entre participantes e mentoras, proporcionando um enriquecimento pessoal imensurável para essas meninas”, comenta Kalinka Castelo Branco, professora do ICMC e fundadora do Grace.

Um dos exemplos do impacto que a escola de verão pode gerar na vida das jovens garotas é a estudante Gabriella Locateli, de 13 anos, que também participou da TechSchool este ano. Ela conta que a iniciativa mudou o pensamento que ela tinha sobre a atuação profissional nas áreas de computação e tecnologia, que até então imaginava serem mais voltadas para os homens:

“Participar desse projeto foi algo que me marcou muito, principalmente pelos ensinamentos que nos foram passados e o estímulo ao trabalho em equipe entre as garotas. Acredito que precisamos de mais mulheres trabalhando nesses ramos e gostaria muito de ser uma delas”, revela a aluna.

Consolidação ano a ano

Technovation Summer School for Girls surgiu a partir de um projeto piloto chamado Hackday e, devido ao grande sucesso da iniciativa, a experiência foi adaptada para o atual formato (que dura cinco sábados). A escola de verão começou sob o guarda-chuva de um grande projeto chamado Ações no Ensino Fundamental e Médio: inclusão feminina no ensino superior de ciências exatas, aprovado pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) no final de 2018. Os bons resultados levaram à continuidade da iniciativa, que novamente foi incluída e aprovada em outra chamada do CNPq, em 2019, dessa vez por meio do projeto Ações no Ensino de Ciências na Educação Básica: ações inovadores para o ensino de ciências fazendo uso de programação com foco na melhoria do ensino público.

Em 2020, mesmo sem novos editais de agências de fomento que se encaixassem na temática, a TechSchool não deixou de ocorrer, trazendo resultados relevantes: dois projetos sobre saúde mental criados na escola de verão estiveram entre os semifinalistas da categoria júnior na Technovation Girls. Um deles foi o app Stop Anxiety, desenvolvido pelas alunas Ana Júlia Santos Garcia, Claudia Roberta Castello, Júlia Roberta dos Santos, Maria Eduarda Santos Linhares e Sofia Bonini Pinto. O objetivo da ferramenta é ajudar na identificação e superação de sintomas de ansiedade. Já o outro aplicativo elaborado foi o Smile, de autoria das participantes Ana Luíza Diogo, Gabriela Kaori, Julia Moraes e Mariana Toledo, focado em contribuir com a redução dos impactos da depressão em crianças e adolescentes.

A fama cresceu

Ao longo das edições, a fama da escola cresceu e foi atraindo cada vez mais meninas: 74 participantes em 2018; 164 em 2019; e 173 em 2020. Em 2021, o evento precisou ser realizado de forma totalmente remota, por conta da pandemia, e houve uma redução no número de vagas oferecidas: 46 meninas participaram. “Apesar dessa redução e da falta de contato das meninas com as instalações da USP, o evento permitiu algo que até então não era possível: a participação de meninas e mentores de outros Estados. Isso enriqueceu o programa e trouxe novas perspectivas de pensarmos o que poderemos fazer de diferente quando essa situação retornar ao antigo normal”, comenta Kalinka. Ao todo, o evento já contou com mais de 300 mentores provenientes do Estado de São Paulo e também dos Estados de Goiás e do Rio Grande do Sul.

Lugar de mulher

Para 2022, Isadora afirma que a meta é chegar a todos os Estados brasileiros e aprimorar ainda mais o projeto: “Pretendemos estudar os times vencedores da Technovation Girls para aperfeiçoar as mentorias de toda a escola, além de impulsionar a TechSchool para outros lugares do Brasil. Inclusive, estamos abertos para auxiliar outros grupos a desenvolverem seus projetos nas suas regiões. Afinal, lugar de mulher é onde ela quiser, e as nossas meninas estão aí para provar!”, finaliza.

A próxima edição da escola de verão deve ocorrer em 2022, porém, ainda não tem data marcada. A orientação é para que as meninas e mentores interessados em participar fiquem atentos ao Instagram (https://www.instagram.com/grace.icmc.usp/) e ao Facebook (https://www.facebook.com/grace.icmc.usp) do Grace.

Para obter mais informações sobre o projeto, basta enviar um e-mail para o endereço grace@icmc.usp.br.

Por Rebecca Crepaldi

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Fonte: Jornal da USP

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