Filho de diarista é aprovado em direito na UnB pelo PAS

10/02/2019

De origem humilde, ele superou o racismo sofrido na infância e o universo da criminalidade e conseguiu conquistar uma vaga mesmo tendo feito apenas duas etapas do programa. O objetivo do rapaz é se tornar defensor público.

“Sempre achei que os estudos seriam a chave e a saída que dariam um futuro melhor para toda a minha família”, diz Roberto Augusto Brito Alves, 17 anos, aprovado em direito na Universidade de Brasília (UnB) pelo Programa de Avaliação Seriada (PAS). Com a divulgação do resultado da seleção Roberto teve a alegria de ver seu nome na lista de selecionados. Caçula entre três irmãos, ele é o primeiro da família a acessar o ensino superior e está em êxtase com a notícia. Por isso, ele fez um post no Twitter, que teve enorme repercussão na internet: foram mais de 38 mil curtidas e mais de 5 mil compartilhamentos, muitos de estudantes parabenizando-o pela conquista. “Quando eu soube do resultado, contei para a minha mãe e nos abraçamos e choramos. A ficha ainda não caiu, estou vivendo um sonho meu e da minha família", revela. "Eu não esperava passar", admite.

De fala calma e articulada, o jovem, filho de uma diarista e de um encarregado em serviços gerais, conta que cresceu em meio à violência e às poucas oportunidades existentes onde mora, em Santa Maria. Na escola, desde a segunda série, sofria preconceito por causa da cor da pele. “O que mais me impressiona é que muitas eram pessoas que passavam por condições semelhantes à minha”, relata. As dificuldades não serviram como desculpas para Roberto e ele, motivado pelos pais, buscou na educação a reviravolta para as condições impostas pela vida. “Tanto minha mãe quanto meu pai, embora não tenham concluído o ensino fundamental, desde que eu era pequeno, mostraram que a única saída é a educação, buscar o conhecimento.”

Sem condições de pagar um cursinho, o ex-aluno do Centro de Ensino Médio (CEM) 404 em Santa Maria, teve algumas oportunidades de bolsa, entretanto, nunca as agarrou, pois isso representaria dificuldades. “Por não serem integrais, se eu fosse pagar, certamente faltaria algo em casa”, conta. O rapaz dedicava quatro horas por dia aos estudos e frequentava a biblioteca da escola para se preparar para o vestibular.

O incentivo dos pais era o combustível para que ele alcançasse o objetivo de ser defensor público, traçado ainda aos 13 anos de idade. A criminalidade e as influências, contudo, quase fizeram com que Roberto se desviasse para um caminho comum a parte dos amigos e conhecidos. “Tive breves envolvimentos com usuários de drogas, problemas na rua, rixa com outras pessoas, mas isso serviu de lição e me motivou a chegar aqui.” 

A luta contra as desigualdades e contra o preconceito racial fizeram parte da vida do jovem desde o ensino fundamental, com a participação em movimentos estudantis e manifestações nas redes sociais. Por isso, o desejo de se tornar defensor público surgiu não apenas com o objetivo de melhorar as condições financeiras da família, todavia, de ajudar outras pessoas que vivem em situações precárias. “A minha maior motivação é tentar minimizar as injustiças e buscar ser a voz daqueles que são silenciados na sociedade. Essa vitória que eu conquistei não é só minha, é da família, de todo o meu convívio”, orgulha-se.

Além dos pais e dos professores, se tornaram referências para Roberto outras personalidades. “Negros como João Cândido, Almirante Negro, Martin Luther King,  Malcon X, Angela Davis foram importantes para mim. Busquei na história deles força para impulsionar minha carreira e estudos”, conta. Houve um momento em que Roberto pensou em desistir da busca pelo ensino superior, em 2015, quando perdeu a primeira etapa do PAS e se viu em desvantagem quase irrecuperável perante os concorrentes. “Tinha me preparado o ano inteiro e, quando foram abertas as inscrições, corri atrás de toda a documentação para enviar, mas o prazo apertou e não consegui enviar tudo”, lamenta. Graças ao esforço, ele conseguiu boa pontuação: 15,2 pontos na segunda etapa e 44,6 pontos na terceira etapa. Roberto passou por cotas para alunos de escolas públicas para pretos, pardos e indígenas com renda familiar de até 1,5 salário mínimo.

O apoio da escola foi fundamental para que ele não desistisse. “O curso que eu queria era concorrido e, como as outras pessoas, teriam três notas e eu apenas duas, pensei que não daria para recuperar. Meus professores me incentivaram a correr atrás e a acreditar. Eu me dediquei bastante para chegar aonde cheguei”, lembra. A conquista da vaga na UnB tornou Roberto numa figura inspiradora perante colegas e outros jovens da periferia. “O que eu posso dizer para pessoas nas mesmas condições é: não desistam. Obviamente existirão obstáculos, palavras negativas e pessoas que não acreditam no seu sonho, mas se você tiver foco e perseverança no objetivo e buscar o conhecimento, vendo a educação como fator de mudança social, com certeza, alcançará o que deseja”, ensina.

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Fonte: Correio Braziliense

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