Por Maristela do Valle

“Vovó sempre se queixa que a Lei de Treze de Maio serviu pra dar liberdade a todo mundo menos a ela, que ficou com a casa cheia de negros velhos, negras e negrinhos. Ela gosta quando casa qualquer delas; dá enxoval e uma mesa de doces.” Este relato de 1894 é da então adolescente Helena Morley no livro Minha vida de menina. A obra, publicada a partir do diário da autora, está na lista das leituras obrigatórias da Fuvest.

Com a ingenuidade de uma garota de 13 anos que morava na Diamantina do final do século 19, Helena conta o dia a dia de uma família mineira em épocas de adaptação aos novos tempos. O Brasil acabava de se tornar uma República, e a abolição da escravatura transformava as relações entre os brancos e os negros.

Essas novas relações estão presentes em vários momentos da narrativa. Em um deles, por exemplo, a família passa férias em um rancho e Helena passa a noite em claro para cuidar de uma criança negra que está com dor de barriga. A mãe então a recrimina por isso, e Helena escreve: “Penso que, se a menina fosse branquinha, mamãe não se incomodava. Mas ela sempre ralha da gente pajear negrinhos. Que culpa têm os pobrezinhos de serem pretos? Eu não diferenço, gosto de todos”.

Helena comenta os fatos a partir da sua própria percepção, sem ter noção da sua importância histórica. Assim conta como recebeu a notícia do final da Revolta Armada, rebelião da Marinha contra o governo do então presidente Floriano Peixoto: “Desde que começou esta briga de Custódio mais Floriano, só Deus sabe as raivas que eu tenho tido sem precisão. Meu pai e meus tios são custodistas e contam tanta maldade desse Floriano que eu, para dormir, às vezes tenho de rezar pedindo a Deus que me tire da cabeça o desejo de que matem esse demônio. … Anteontem é que sofri deveras… estávamos passeando no campo, quando vimos irem chegando diversos cavaleiros já atacando fogos mesmo a cavalo. Corremos para saber da novidade. Era o pai e os cunhados de Jeninha e mais outros que foram também para a Palha festejar com a família a vitória de Floriano. Eu fiquei tão pálida e desapontada, que todos riram”.

Helena é totalmente autêntica em seus relatos, sem se preocupar com o que os outros pensariam de suas impressões em relação ao mundo. Seu diário na época não tinha qualquer pretensão literária, tanto que foi publicado apenas em 1942, quando a autora já tinha 62 anos e queria mostrar a diferença entre a sua infância e a da meninada da época.

Hoje esse abismo é maior ainda. Lembremos que no final do século 19 não existia nem sequer luz elétrica no Brasil. Imagine então se alguém sonhava com modernidades como computador, celular e TV. Diferentemente dos blogueiros e youtubers de hoje, a garota jamais imaginaria que suas ideias seriam lidas por tanta gente, inclusive em outras línguas. Para o inglês, por exemplo, o diário foi traduzido pela famosa poetisa britânica Elisabeth Bishop.

A franqueza de Helena e sua linguagem coloquial tornam a leitura leve, agradável, como se fosse um passeio. A predileção da avó pela própria autora, as angústias da menina por não ter um vestido novo, as dificuldades do pai em conseguir encontrar diamantes nas minas, as aflições antes das provas da escola, as festas religiosas de rua e até suas confissões para o padre no dia da Primeira Comunhão são alguns episódios que surgem ao longo da trama.

Momentos tão banais nos dias de hoje eram grandes acontecimentos na época. Veja, por exemplo, a reação de Helena ao conhecer uma iguaria tão comum no século 21, que faz parte da dieta de qualquer criança: “Veio na sobremesa um copo com um doce bonito dentro. Eu encho a colher e ponho na boca. Tomei um susto e todos caíram na gargalhada. É uma coisa que aconteceria a qualquer, pois nenhum de nós conhecia. Chama-se sorvete e é feito de gelo”.

Como será que o sorvete se mantinha consistente em uma casa que não tinha geladeira? Isso Helena não conta. Mas nos faz pensar como o mundo pode ter mudado tanto em pouco mais de um século.