COTAS NAS MÍDIAS

O debate em torno do sistema de cotas tem acirrado os ânimos e criado um embate maniqueísta, com pessoas simplesmente se declarando a favor ou contra a questão. Nesse contexto, rádio, TV, jornais, revistas e internet de repente têm destinado grandes espaços ao tema. Por que será?

Relembremos alguns episódios noticiados recentemente. Na Fundação Getúlio Vargas, em São Paulo, uma caloura de 17 anos do curso de Economia foi hostilizada durante um evento esportivo da instituição com a frase: “Negrinha, aqui não”.

Em Avaré (SP), o banheiro do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de São Paulo foi pichado com os seguintes termos racistas: “#forapretas”, “#pretasfedidas” e “Fbranco”. No “programa humorístico” Pânico, da Rádio Jovem Pan, o cantor carioca Mr. Catra atacou a política de cotas raciais e responsabilizou os negros africanos pela existência do escravismo.

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Em rede social, o presidente da Bayer Brasil denunciou um caso de racismo durante um processo de seleção, no qual um conhecido dele, “afrodescendente com uma excelente formação e currículo”, ouviu a frase: “Não entrevisto negros”. A justificativa do seu amigo para não fazer uma denúncia dá o tom da dramática situação: “Sou de uma família simples e humilde; custou muito para chegar aonde cheguei”. No cinema, está em cartaz o ótimo filme Eu não sou seu negro, dirigido por Raol Peck, indicado ao Oscar.

Nesses momentos, vem à memória a figura do grande estrategista italiano Nicolau Maquiavel (1469-1527). Para ele, as ações e os eventos humanos são explicados pela fortuna (sorte, acaso) e também pela virtu (deliberação madura). Modernamente, parece haver considerável desproporcionalidade a favor da virtu.

Cotas x jogos de futebol

Que há de errado nessa profusão de matérias sobre as cotas raciais? Afinal, o debate sobre o tema ajuda a elaborar melhor uma opinião sobre o assunto. O problema está em um pequeno detalhe. Aliás, como diz o provérbio: “O demônio mora nos detalhes”. Parece não haver um cuidado especial com o tema por parte das mídias, especialmente naquelas de grande alcance nacional. Tratam-no como se fosse uma partida de futebol. Ou melhor, dão menos importância ao tema do que a eventos esportivos, para os quais as mídias veiculam comentários de especialistas, como técnicos, professores e jogadores. Convenhamos, um erro de análise desses profissionais especializados não provoca nenhuma alteração nos destinos da humanidade.

Escarafunchando a regra midiática brasileira, notamos mais rigor em temas como sexo, poluição, saúde e educação. Especialistas renomados são estrelados porque conferem credibilidade ao tratamento de cada tema e, por extensão, à própria mídia. Como os comandantes dos grandes veículos de informação são profissionais experientes, suspeitamos que se trata de um caso de “racionalidade estratégica”, conceito definido pelo filósofo e sociólogo alemão Jûrgen Habermas (1929). Nesse caso, haveria um propósito deliberado em tratar temas de alta complexidade, estratégicos para o país, como se fossem partidas de futebol ou programas de auditório.

Esse comportamento pode ser justificado pela pouca atração exercida pelos especialistas em relações raciais, pois sua argumentação exige uma reflexão complexa, transcendendo opiniões simplistas e achismos. As motivações midiáticas se inspiram no imaginário social, que orienta sua programação. São como aquelas pessoas que buscam cartomantes na expectativa de ouvir aquilo que desejam. O discurso midiático então perde o trem da história das ideias e se mantém rigidamente fiel a teses que fizeram sentido em um passado distante, mas que já foram desmistificadas há mais de meio século por estudos, como os do Projeto Unesco para relações raciais.

COTAS NAS MÍDIAS

Há pelo menos um nó a ser investigado: a relação entre discurso midiático e a apropriação de desenvolvimentos científicos e filosóficos. A dificuldade na apropriação das inovações científicas pela mídia provoca desdobramentos altamente nefastos, sobretudo àqueles que têm em um personagem como Mr. Catra uma importante referência de comportamento. Se o propósito é ganhar mais audiência ou “likes” nas redes sociais do que destilar o debate sobre o racismo, é possível compreender a escolha do interlocutor.

Todos nós somos movidos por interesses e é fundamental identificá-los com nitidez. Esse pressuposto deve servir para nos colocar em estado de alerta, para evitar que a nossa opinião seja formada por versões de interlocutores desqualificados ou uníssonos. O contraditório qualitativo é um método de elaboração pautado na honestidade intelectual, capaz de promover uma reflexão. Se quisermos um país mais justo, menos desigual, precisamos de uma mídia mais comprometida com a excelência não apenas estética de suas programações.

 

Billy Malachias,

Leonardo Borges da Cruz

Joel Arnaldo Pontin