Prezado Mr. Catra,

Sua entrevista no programa Pânico veiculada pela Rádio Jovem Pan em 7 de março, disponível em https://www.youtube.com/watch?v=Id1XfzTsZWs, é um grande desserviço. O senhor perdeu uma grande oportunidade de se restringir à divulgação do seu trabalho, originalmente objeto da entrevista.

Há carência de fundamentos em diversas de suas afirmações. Do ponto de vista histórico, os africanos começaram a ser trazidos para as Américas no século XVI, quando foram escravizados pelos jesuítas espanhóis Bartolomeu de Las Casas (1474-1566) e Juan Ginés Sepúlveda (1490-1573). Ambos se basearam em interpretações bíblicas sobre o Mito de Cam para estabelecer que os africanos abaixo do Saara estavam fadados a servir como escravizados dos descendentes de Jafé e Sem.

Essa escravidão conduzida pelos europeus nas Américas era muito diferente daquelas já existentes na África, onde havia a escravidão por guerra, em que o vencedor escravizava o derrotado, assim como ocorria na Antiguidade, e a escravidão por dívida, em que o devedor aceitava o estatuto de escravizado, servindo ao credor em serviços variados e em condições acordadas entre as partes. Essas informações evidenciam, Mr. Catra, sua carência de honestidade intelectual em atribuir a negros a causa da escravidão nas Américas. Talvez o rigor acadêmico dessas informações dê menos audiência que o descompromisso do senso comum.

CARTA ABERTA A MR. CATRA

CARTA ABERTA A MR. CATRA (Entrevista ao programa PANICO, na Jovem PAM).

Livros e filmes sobre a negritude

Sem fundamentação nem freios, o senhor emitiu sua opinião sobre temas polêmicos da agenda antirracista, posicionando-se sempre de forma contrária aos interesses e necessidades da população negra. Há que se perguntar: por que diante de um veículo de comunicação de massa o senhor se posicionou assim, Mr. Catra?

A literatura sobre relações raciais aponta que, em contextos complexos como o da sociedade brasileira, é muito comum que pessoas do grupo subalternizado usem a estratégia de se distanciar da opressão, aproximando-se do opressor. Assim, fogem do lugar social do desconforto, juntando-se em críticas e apoio ao grupo ocupante do lugar social de maior prestígio. Ficam, assim, supostamente invisíveis à opressão.

Nesse jogo dialético da inconsciência-consciente e da consciência-inconsciente, o senhor se despiu da estima de sua origem ancestral africana, das suas boas e más lembranças de criança carioca, preta, racializada e pobre, sem respeito algum ao sofrimento cativo dos seus ancestrais. Sem compromisso algum com a possibilidade real de um dia as cotas colocarem fim ao sofrimento dos seus contemporâneos, o senhor se vestiu de capitão do mato.

O capitão do mato, personagem da história brasileira, era odiado e temido tanto pelos seus iguais, os negros, como pelos seus diferentes, os brancos. A mando do senhor de escravos, era responsável por localizar, capturar, devolver e espancar as pessoas escravizadas fugitivas das fazendas. Com a assinatura da Lei Áurea, o capitão do mato deixou de existir como profissão – ainda que esteja persistindo enquanto vocação.

Assim como o senhor, Mr. Catra, os capitães do mato do passado moviam-se pela falsa crença de que, agradando e servindo ao senhor, circulando pelas proximidades da Casa Grande, se igualariam em status aos seus senhores e seriam respeitados por eles. Os capitães do mato não tinham consciência de que suas participações, movimentações e falas em lugares sociais de prestígio eram sempre controladas pelo imaginário social dominante. O mesmo acontece com o senhor, Mr. Catra. E ambos não percebem que, para esse imaginário, seu lugar é o de subalternidade. Durante a entrevista de mais de uma hora, o senhor falou sobre música nova, relacionamento conjugal, família, Rio de Janeiro, Israel e democracia, entre outros temas. Mas apenas os quase dois minutos dedicados às cotas e à escravidão viralizaram e foram comentados nas redes sociais.

Mr. Catra, sugerimos que o senhor entre em contato com a literatura especializada em relações raciais antes de se pronunciar sobre o tema. O psiquiatra e filósofo francês Frantz Fanon (1925-1961), no livro Pele Negra, Máscara Branca, mostra mecanismos psicanalíticos de reprodução do racismo. O sociólogo jamaicano Stuart Hall (1932-2014) desvendou como um regime de representação hierarquizante se reproduz em configurações sociais de aparente harmonia entre os diferentes grupos. As pedagogas brasileiras Petronilha Beatriz Gonçalvez e Nilma Lino Gomes e a socióloga norte-americana Patricia Collins há anos demonstram a existência de um pensamento negro, algo muito diferente do seu, Mr. Catra.

Outra sugestão é conhecer o trabalho do antropólogo brasileiro-congolês Kabengele Munanga. No livro Rediscutindo a Mestiçagem no Brasil, o autor destila o conceito e a noção de mestiçagem, demonstrando como nossa identidade foge em muito ao imaginário replicado nas grandes mídias. A escritora brasileira Carolina Maria de Jesus (1914-1977), mesmo sendo pouco estudada no próprio Brasil, alcançou enorme sucesso literário fora do país ao expor com sangue e suor a vivência de uma mulher negra, pobre, favelada e subalternizada.

Mr. Catra, também sugerimos que o senhor assista ao filme Eu não sou seu negro, que aborda a temática racial em um plano pouco explorado no Brasil. O documentário trata da branquitude com cenas do passado e do presente entrelaçadas por reflexões explosivas do escritor norte-americano James Arthur Baldwin (1924-1987). Um dos pontos marcantes do filme é a cena em que um apresentador de TV pede a opinião do professor universitário Paul Weiss sobre as teses de Baldwin. Ao discordar do argumento de Baldwin sobre a distinção de tratamento dado a brancos e negros, afirmando ser falsa a ideia de diferenças raciais, o debate cresce. Então, entendemos o que vem a ser aquele modo de pensar que caracteriza a branquitude – que, aliás, não é exclusiva de brancos, mas conta com a voz de indivíduos negros, fazendo perpetuar o racismo. Mr Catra, certamente esse filme lhe provocará uma reflexão mais apurada, para além do senso comum. Convide ainda os jornalistas da Jovem Pan e os componentes do programa Pânico para que assistam ao filme com o senhor. Certamente os senhores terão mais subsídios para falar sobre um assunto tão complexo.

EU NÃO SOU SEU NEGRO!

EU NÃO SOU SEU NEGRO!

Por fim, Mr. Catra, o ENEMEX o convida a ler o texto “Cotas nas Mídias”, publicado na seção Redação Nota 1.000 do seu site. Nesse texto, apresentamos aos estudantes que escreverão uma redação para o ENEM e os vestibulares alguns pontos elucidativos sobre o tema COTAS RACIAIS. Também mostramos a importância de uma abordagem responsável sobre o assunto, para que o país possa definitivamente avançar rumo à redução das enormes desigualdades que chagam a organicidade brasileira.

Atenciosamente,

Billy Malachias,

Leonardo Borges da Cruz e

Joel Arnaldo Pontin